A morte do gato

Por Carlos Navarro Filho



A morte do gato
Zé Augusto e os outros iguais ouviram o enxadão da obra dizer que eram onze e quarenta e cinco, hora de pegar a bóia. Gosta de comer frio, não perde tempo na fila da trempe para esquentar a marmita. É o primeiro a tomar assento na arquibancada de três degraus do caramanchão. Hoje é segunda-feira, tem comida especial que Florinda preparou. Além do ovo frito com feijão e farinha, tem um bife de fígado economizado da comilança do domingo. Segunda é dia de banquete. Além do trivial zóiudo sobre o feijão, há sempre uma novidade. Florinda poderia ser chamada de Amélia, como na canção. Acorda ainda com as estrelas, prepara a marmita, não deixa o marido atrasar. A bermuda que ele vai sujar no ofício de ajudante de pedreiro está lavada, e impecavelmente passada, de véspera. A camisa, dobrada que nem em vestiários de times de futebol quando o atleta chega, está toda bonitinha ao lado da bermuda em cima da cama ainda quente da noite de dois corpos misturados. No chão, a sandália de dedos. Zé é tratado com muito esmero. Que mulher cuida assim do seu homem, dá de comer, de beber, dinheiro pra cerveja do sábado, banquete no domingo - é mocotó, feijão com fato, dobradinha, sarapatel, carne assada na brasa, bife de fígado acebolado, lava e passa a roupa, ainda consegue ser bonita, cheirosa e chameguenta, tudo isso com um salário mínimo? Florinda. Manoel dos Anjos e Benedito Bacurau chegam falantes ao caramanchão e cortam os pensamentos do amigo Zé. Os dois são solteiros e mais novos, Manoel acabou de fazer dezoito e Bacurau tem 19. Zé tem vinte e um e mulher para sustentar. Bacurau está preocupado. - Encontrei o gato lá minha rua ontem. - Que gato? - O seu Florêncio. - Mas ele não foi corrido de lá pela polícia? - É, mas volta sempre que aparece gente nova. Chegou família com três filhos homens de Aramari e ele já está rondando, oferecendo trabalho em uma obra no Riacho da Guia. Né construção de prédio não, é um trecho. - Isso vai dar confusão, se ele aparecer novamente eu chamo a polícia. Ele não vai ter mais escravo, que nem eu e meu irmão. Não vai mesmo, garantiu Bacurau. Notícia em canteiro de obra espalha que é uma beleza. Não tardou Florêncio, acompanhado de Paraíba, outro gato famoso e violento, apareceu na birosca da rua. Foi entrando e gritando com seu vozeirão “seu Fernando a gente tá com sede, uma cerveja e dois milome”. - Milome não tem, respondeu o outro com cara de poucos amigos pois já conhecia a fama do entrante. Final de tarde, já escurecendo, bar vazio, os gatos escolheram a mesa do canto do balcão de alvenaria da qual se podia monitorar todo o ambiente. - Não tem nenhuma folha podre? - Não. - Nada? - Pau de rato e umburana de cheiro. - Duas umburanas de cheiro, é um santo remédio para o estômago, e a cerveja. - Tira-gosto o que é sai? - Não sai, a cozinha já fechou, a gente fecha às seis. Sai sanduiche de queijo, ou misto. Ou então essa farofa de carne seca torrada. - Tu quer Pará?, perguntou Florêncio. - Sei não, só se for essa farofa engasga gato. Florêncio riu, pediu. Silêncio. - Outra rodada, rosnou o pouco polido Florêncio. Silêncio. Entra apressada uma mulher, quebra a tensão ambiente, pede um pacote de fósforos, paga e sai. Silêncio. - O senhor conhece um moleque chamado Bacurau? - Não. - Ele mora aqui por perto. - Não vendo bebida a de menor, não anda no meu estabelecimento. - Né de menor não, já tá aí na casa dos vinte. - Não conheço não. - Então bota a saideira. Já passava das sete quando os dois saíram. - A gente tem de pegar esse moleque hoje, alcaguete morre com a boca rindo pros dentes. - Vamos campanar, eu sei onde ele mora, propôs Florêncio e seguiram pela rua escura de chão batido. No dia seguinte Bacurau não foi trabalhar. No outro, também. No terceiro dia de ausência do amigo Zé pressentiu que Bacurau estava em apuros. Certamente ficara doente. Mais um dia e o ajudante de pedreiro procurou o escritório. - É ordem para não comentar nada. A polícia teve aqui à procura dele. Disse que ele e mais dois esfaquearam dois mestres de obra. Um morreu e ou outro está mal.

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