Capítulo baiano da Lava Jato, por Raul Monteiro


O ex-deputado federal Luiz Argolo, depois de quase oito meses de cárcere, ameaça colocar a boca no mundo antes que seja tarde para se beneficiar do acordo de delação
A ideia de que a Bahia pode ganhar um capítulo especial da Operação Lava Jato por livre determinação do juiz Sérgio Moro e do Ministério Público Federal está deixando de ser uma especulação remota para ganhar cada vez mais contornos de realidade. Por causa do envolvimento de empreiteiras com berço no Estado e da prisão ou investigação de políticos, empresários, personalidades ou agentes públicos baianos, as menções à possibilidade de os investigadores adotarem uma ofensiva específica para apurar transações que teriam tentáculos no Estado sempre fizeram parte do mundo dos offs (não registrado).
Nos últimos dias, entretanto, um fato novo deixou aqueles que apostam em ramificações concretas do esquema do petrolão na Bahia com ânimo para aumentar suas expectativas. A começar por informações surgidas na imprensa envolvendo o ex-deputado federal Luiz Argolo, que, depois de quase oito meses de cárcere, ameaça colocar a boca no mundo antes que seja tarde para se beneficiar do acordo de delação, e o deputado federal Mário Negromonte Jr. (PP), filho do conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), Mário Negromonte, ex-ministro indicado pelo PP no qual a Lava Jato já demonstrou estar de olho.
Aliás, consta que Argolo decidiu fechar o acordo com a Justiça depois que lhe teriam chegado, por intermédio de um marqueteiro que sempre cuidou de suas campanhas, recados ameaçadores lhe dirigidos por Negromonte Jr. no sentido de que sua família correria risco de vida caso decidisse abrir o bico. A passagem recente de Argolo pelo PP, partido na Bahia sob controle dos Negromonte e do vice-governador do Estado, João Leão, é o que mais dá gás à suposição de que todos eles possuem relações de proximidade, embora um comportamento ameaçador esteja longe do perfil público do jovem Negromonte Jr., figura educadíssima.
A bem da verdade, até muito recentemente, Argolo vinha intrigando a todos ao manter-se calado durante todo este tempo, mesmo depois que vazaram informações de que caíra em depressão profunda, o que teria obrigado seus pais, mulher e filhos a migrarem para Curitiba a fim de dar-lhe mais atenção neste momento difícil. Daí que, como tem acontecido em quase 95% dos casos dos presos pela Operação, não espanta que agora o ex-parlamentar tenha decidido abrir a boca e contar tudo o que sabe para livrar-se da privação da liberdade, da falta de perspectiva de uma saída e da possibilidade de uma condenação severa.
Mesmo porque sempre se falou abertamente na Bahia que, dos presos ou de todos sob investigação no processo da Lava Jato, o deputado federal, que hoje está suspenso do partido Solidariedade, era aquele que tinha menos estrutura emocional para suportar a vivência tão prolongada numa penitenciária. Por certo, não é apenas a eventual delação de Argolo, com relações conhecidas com lideranças políticas importantes do Estado, que deve justificar um capítulo especial das investigações na Bahia. Mas, dado o networking político do rapaz, já deve ter muita gente na Bahia com medo de acordar com a Polícia Federal à porta.
* Artigo publicado originalmente na Tribuna da Bahia
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