Sandro Régis

Sandro Régis
O líder da oposição na Assembleia Legislativa da Bahia, Sandro Régis (DEM), avalia o governo Rui Costa como “muito ruim”. De acordo com o opositor, a gestão de Costa é 'continuísmo' - utilizando uma expressão comumente usada pela oposição - do governo de Jaques Wagner, atual ministro da Defesa. Mesmo com as rusgas entre o governo e sua base na Casa, Régis acha que é um clima mais “fácil” para a bancada de oposição, que, na concepção dele, tem deputados “aguerridos” e que querem, de fato, legislar. Perguntando sobre qual o principal ponto frágil da administração do governador Rui, Régis afirma: o modelo de gestão do PT. “O governo do PT prioriza a propaganda, o 'oba-oba'. Quando você vai para a essência, vai muito ruim. Morre mais gente em Salvador num fim de semana que na Faixa de Gaza. O secretário de Saúde pega a secretaria e desfaz tudo que o antigo secretário fez. O que eu acho é que tem que se mudar o modelo PT”, definiu.

Você poderia fazer um balanço nestes oitos meses à frente da bancada de oposição? Como você avalia esse trabalho e os desafios, os que já se passaram e os futuros? 
Tem sido uma grande experiência no meu mandato parlamentar, já estando no quarto mandato. Não é fácil você ser líder da oposição em um governo onde o governador ganha em primeiro turno, mas eu tenho tido a satisfação de estar com deputados que estão aguerridos no projeto, deputados que tem se comprometido e se doado ao projeto de oposição na Bahia. Nós temos trabalhado muito em conjunto, compartilhando ideias, compartilhando as funções. Cada projeto que chega na Casa a gente chega, conversa e vê qual deputado tem mais conhecimento sobre o tema e é esse deputado que coordena o estudo sobre o projeto na Assembleia. Existe a figura do líder, mas todos são líderes dentro da bancada, todos os deputados buscam ter funções, agregar e ajudar. Me sinto muito feliz de estar ao lado desses companheiros de bancada, liderando essa bancada que tem feito um ótimo trabalho.  É uma bancada muito equilibrada, coesa, que sabe, acima de tudo, o que ela quer: fazer uma oposição que só tem o interesse de defender a Bahia e os baianos. Tem sido um grande orgulho liderar uma bancada tão proativa como esta que temos hoje.

Nas últimas sessões, algo que se tem percebido é um foco grande em valorizar o debate dentro da Casa, a participação das comissões, que a função das comissões seja exercida. É uma bandeira que bancada pretende levantar mais neste período?
Nós entendemos que a Casa não pode ser uma mera secretaria do governo estadual. Os baianos, quando elegeram 63 deputados, foram para que eles cumprissem seus papéis de legisladores. Você não pode ter uma casa que se agache e se submeta à vontade do governo. Existem os deputados de governo e de oposição, mas o parlamento precisa ser preservado. E se existem as comissões temáticas na Casa, com estrutura e cursos gerados para sociedade, nós defendemos que os projetos tramitem nos tempos regimentais, passem pelas comissões, para que os deputados tenham oportunidade de saber o que está sendo votado, de conhecer o projeto. Não podemos deixar de abrir mão que o exercício do Parlamento seja feito. Você não pode receber o projeto numa quinta, votar um requerimento de urgência numa terça e, depois de oito dias, votar o projeto. Você nem sabe no que está votando. Isto não é uma bandeira da oposição, é uma bandeira pelo fortalecimento do Parlamento. A Assembleia tem que ser um parlamento independente. Nós não vamos abrir mão de que os projetos tramitem em regimes normais, passem pelas comissões, para que todos os parlamentares tenham o conhecimento sobre aquilo que estão votando.
O senhor acha que há diferença entre o governo Wagner e o governo Rui nesta questão da independência da Casa?
Não. O governo de Wagner e o governo de Rui é um governo só, que é um governo de continuidade. A Casa continua com os mesmos erros de, em muitos momentos, votar projetos que são apenas bons para o governo, mas ruins para a sociedade. Nós não podemos cometer este tipo de equívoco. É por isso que continuamos esta bandeira, que não apenas é nossa, mas de muitos deputados do governo que acham e concordam que os projetos devem ser votados depois que tramitem nas comissões.

Apesar de ser um governo de continuidade, a relação do governador Rui Costa e a Casa, sobretudo em relação aos deputados da base, mostra algumas diferenças, e até mesmo os próprios deputados já manifestaram isso. Esses conflitos beneficiam de alguma forma a bancada de oposição?
Não. Acho que eles estão discutindo sobre ajustes da bancada de governo. A bancada de oposição não exerce seu papel na Assembleia nem atrelada ao governo nem atrelada à presidência. Nós caminhamos de acordo com a consciência da bancada. Nós não ficamos muito atrelados às questões de deputados com o governo, deputados de centro. A bancada de oposição caminha com as próprias pernas.

O senhor vê alguma movimentação de deputados da base que poderia fortalecer o posicionamento da bancada em algumas votações?
Pode ter alguma coisa pontualmente, mas depois que eles sentam e se ajustam, eles se arrumam. Fica muito definido quem defende o governo e quem defende a Bahia. Isso fica muito claro para a população baiana e para a sociedade.

O senhor mencionou que há projetos que não beneficiam o governo, mas só beneficiam a sociedade. Neste ano, o senhor destacaria algum ou alguns projetos que seguiriam esta lógica?
Esse projeto do Funprev, por exemplo, nós fizemos uma emenda que dizia que o dinheiro do Funprev tem que ficar cinco anos retido num fundo da previdência, para capitalizar o fundo. Eles acham que não. Então, nós entendemos que esse projeto do Funprev é um projeto que resolve o problema do governo, mas não resolve o problema crônico que é a previdência dos funcionários públicos do Estado da Bahia.

Como o senhor analisa a relação com o governo?
A gente tem que fazer uma avaliação que nos deixa muito triste. O Brasil perde a classificação de ser um país apto a investimentos no mercado internacional. O que sentimos é um governo federal que perdeu o controle completamente, que perdeu o rumo, que não tem credibilidade financeira, que não tem credibilidade política, que não tem mais credibilidade para tocar o projeto Brasil. Se você vem para a Bahia, que é o mesmo caminho e mesmo modelo de se administrar, o que você sente? Você sente que é um governo de continuidade, onde o governador Rui Costa foi o grande maestro do governo Jacques Wagner e hoje você vê o governador viajar para ir para escola. É um governo que você já conhece, que já está há oito anos tratando a Bahia. Hoje você ouve que a Bahia está quebrada, com dificuldades. E eu pergunto: quando Jaques Wagner assumiu, era herança maldita. E agora? É herança de quem? A situação que a Bahia vive hoje na área da educação, da segurança, da saúde e, principalmente, na área econômica, onde o próprio governo diz das dificuldades que têm atravessado, diversas licitações desertas, pois as pessoas têm medo de trabalhar e não receber. De quem é a herança maldita? Esses oito anos de projeto de poder na Bahia.
O que é que falta no governo Rui Costa? Seria mais uma questão de início de gestão?
Não tem início, é um governo de continuidade. Os oito anos passados viveram na margem e navegando no governo federal. Nós fizemos uma agenda de fiscalização, onde fomos para Itabuna e Ilhéus, e foi um horror, nós fizemos as fotos. Não existe Ponte do Pontal, não existe duplicação da 415, não existe barragem da Colônia, Centro Cultura de Itabuna abandonado, Centro de Convenções abandonando. O Hospital Luiz Viana Filho, com três anos já, só tem 1% de recuperação e ampliação da emergência do hospital, então é um governo excessivamente da propaganda. Um governo que priorizou a propaganda. Na época da campanha, eles lançam este pacote mirabolante de obras, como foi com a Dilma também, tentam iludir a população e depois nós pagamos um preço muito alto. Estamos todos nós pagando um preço muito alto, está aí. É inadmissível você ver a presidente querer aumentar o imposto de renda. O governo, que já é sócio do nosso trabalho, que ser sócio majoritário do nosso vencimento. Nós não podemos pagar a conta pela má-gestão, pela corrupção entranhada que o governo PT trouxe e institucionalizou em nosso país. Eu acho que, na Bahia, o governo não disse para que veio. O que você sente é um governo com sérias dificuldades. E aí você me diz: “Deputado, mas são só oito meses”. Tudo bem, mas este governo faz parte de um projeto que já tem oito anos, e essas dificuldades todos nós já conhecíamos, pois foram eles mesmos que criaram essas dificuldades.

Qual a principal correção de rumo e em que área ela precisa ser feita, já tomando como perspectiva a questão de continuidade do projeto do antigo governo?
Acho que tem que se mudar o projeto. É só você comparar a Bahia e Salvador. Você vê que o prefeito ACM Neto recebeu a cidade destroçada, recuperou Salvador e já foi eleito duas vezes o melhor prefeito do Brasil. Não precisa você ser correligionário para sentir que Salvador é uma cidade diferente, uma cidade que as pessoas têm voltado a respeitar, que tem ocupado o lugar ser uma das principais de capitais do país. Então, é conceito, é priorização. O governo do PT prioriza a propaganda, o “oba-oba”. Quando você vai para a essência, vai muito ruim. Morre mais gente em Salvador num fim de semana que na Faixa de Gaza. O secretário de Saúde pega a secretaria e desfaz tudo que o antigo secretário fez. O que eu acho é que tem que se mudar o modelo PT. O mesmo modelo PT que administra o Brasil é o mesmo que administra a Bahia. Da mesma forma que o brasileiro começa a enxergar que esse modelo não fez bem para a sociedade, os baianos também começam a ter esta convicção.

Em relação à CPI das obras inacabadas, já há algum posicionamento da bancada?
Quero registrar que o deputado Luciano Filho foi muito feliz quando foi proponente desta CPI. Uma CPI em que mostramos ao Parlamento R$ 200 milhões em obras paradas, diversas obras no interior paralisadas, principalmente na área da educação, e o deputado Luciano Filho teve o cuidado de apresentar, e a Casa teve uma posição política. A Casa, usando seu regimento, e o presidente, usando sua prerrogativa de presidente, teve a decisão política de não abrir a comissão de inquérito. A CPI não seria uma CPI acusando ninguém, apenas para esclarecer o que se aconteceu, o que já causou 6.000 demissões este atraso nos pagamentos, porque as empresas que prestaram o serviço não receberam e tiveram que fechar.  Mas, infelizmente, a Assembleia teve uma decisão política em não acatar a CPI. O nosso jurídico já está analisando qual o caminho a ser tomado.

Em relação à própria bancada, antes dessa renovação, era muito pautada em uma base técnica em seus posicionamentos. O senhor acha que houve uma redução disso?
Não, pelo contrário. Nós perdemos três deputados, Paulo Azi e Eumar, que foram para Brasília, e o deputado Gaban, que não concorreu à reeleição. Só que entraram deputados bastante qualificados, como Luciano Simões Filho (PMDB), o próprio Luciano Ribeiro (DEM), que é advogado e ex-prefeito, o próprio Hildécio (Meirelles, do PMDB). Enfim, a bancada hoje está muito equilibrada e qualificada tecnicamente.

A bancada de oposição de agora é mais forte, ou a bancada do governo é mais fraca? O governo tem encontrado bastante dificuldade...
Nossa bancada está bastante coesa, muito qualificada, nós temos um projeto de oposição muito claro. Nós temos seis partidos na oposição, partidos que comungam do nosso projeto, e o que posso dizer, em relação à minha bancada, é que ela está muito bem constituída, bastante aguerrida. Quando chegaram os deputados novos, eles vieram com muita vontade de trabalhar. Nossa bancada está muito entusiasmada com o desafio parlamentar.
O senhor está no início quarto mandato. Como avalia o futuro? Pretende sair do Legislativo e passar para o Executivo em algum momento?
Todo profissional espera crescer. A gente trabalha para crescer. Neste momento, o meu objetivo é desempenhar o papel de deputado que a Bahia me deu, desempenhar minha liderança e esperar as coisas acontecerem naturalmente. Eu pertenço a um grupo político liderado pelo prefeito ACM Neto e ainda restam três anos de mandato. O que tenho que fazer é continuar trabalhando, prestando conta do meu mandato diariamente e tocar a vida. O futuro a Deus pertence.

Dentro deste futuro que a Deus pertence, uma mudança seria mais próxima, ou é um futuro mais distante?
Não sei avaliar. Como sou político de grupo, que determinará de qual forma meu mandato poderá fortalecer o grupo. Hoje eu sou deputado, estou deputado, isto está muito distante de mim neste momento. Quero focar no meu trabalho de deputado estadual, de líder da bancada de oposição, e, juntamente com meus pares, trabalhar e fazer essa balança que é muito importante para o fortalecimento da democracia.

Recentemente, vazou um áudio no qual o presidente da AL-BA, deputado Marcelo Nilo, afirma que, enquanto ele estiver no poder, a filha dele terá cargo no governo. O senhor vê algum problema em legisladores terem parentes empregados em outros cargos, seja no Executivo ou no Judiciário?
Às vezes, você julga uma pessoa somente porque ela é filho de político. Depende da qualificação do profissional. Se for um profissional competente, por que não pode arranjar emprego? Você não pode colocar para exercer uma pessoa para exercer uma importante função pública se ele não tiver qualificação adequada, só por ser filho de político, de pessoa importante, isto está errado. Se for uma pessoa com qualificação para exercer a função, ela vai ser punida por isso?

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